Gafaria no Expresso



O jornal Expresso publicou uma reportagem sobre o sítio do Valle da Gafaria ( / Parque do Anel Verde), em Lagos, onde uma intervenção preventiva de Arqueologia da Dryas identificou em 2009 um conjunto extremamente importante de enterramentos dos primeiros escravos trazidos de África, cujos vestígios osteoarqueológicos estão a ser estudados em colaboração com o Dep. Ciências e Vida da Universidade de Coimbra.

Em 2009, a Dryas foi chamada a realizar uma intervenção de Arqueologia preventiva de Arqueologia em Lagos, nas imediações de uma das portas da muralha da cidade, no local antes conhecido como Vale da Gafaria, então Parque do Anel Verde de Lagos. A realização da intervenção de Arqueologia decorria da necessidade de minimização de impactes arqueológicos da construção de um parque de estacionamento subterrâneo projectado para o local.

Se a toponímia antiga do local denunciava já a presença de um antigo hospital de leprosos, o aparecimento de vestígios osteológicos ainda numa fase anterior à da entrada da Dryas no projecto já fazia reflectir sobre a origem desses vestígios.

A escavação subsequente viria a revelar de facto um registo arqueológico completamente ímpar, na Europa e no mundo, relacionado com a chegada dos primeiros escravos negros à Europa. Com efeito, o que se descobriu no Vale da Gafaria de Lagos foi uma lixeira urbana de muito grandes dimensões, no seio da qual um fenómeno neotectónico provocou a abertura de um buraco com cerca de 16 metros de diâmetro no qual viriam a ser descartados os corpos de dezenas de escravos. A este respeito, note-se que as fontes escritas noticiam a primeira chegada de escravos a Lagos em 1444 e a datação radiométrica por carbono 14 de um dos enterramentos mais antigos deste “Poço dos negros” ter fornecido uma estimativa de idade entre 1420 e 1480 d.C.

A intervenção de salvamento no sítio, concluída ainda em 2009, realizou a preservação pelo registo e recuperação do material arqueológico e informação associada, de acordo com as determinações da legislação vigente e o acordo do instituto da tutela do património histórico-arqueológico de Portugal.

Desde então, e à margem da forma de musealização do sítio e/ou dos vestígios arqueológicos recuperados, a Dryas tem vindo a desenvolver, sob a direcção conjunta de Maria João Neves e Maria Teresa Ferreira e sempre em colaboração estreita com o Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, um intenso programa de investigação acerca deste sítio do qual resultaram já dezenas de publicações científicas e trabalhos académicos. Para além deste programa continuado de investigação, a exploração científica do manancial de informação que constitui a colecção arqueológica recuperada no Vale da Gafaria tem também sido feita por investigadores terceiros, nacionais e estrangeiros, que visitam por temporadas mais ou menos longas a Dryas para estudar estes vestígios no âmbito dos seus próprios projectos de investigação.

De entre os investigadores com trabalhos já produzidos sobre esta colecção listem-se, para além das referidas responsáveis:

- Sofia Wasterlain (Universidade de Coimbra);

- Ana Maria Silva (Universidade de Coimbra);

- Ron Pinhasi (School of Archaeology Genetics, University College of Dublin, Ireland);

- Rui Martiniano (Smurfit Institute of Genetics, University College of Dublin, Ireland);

- Daniel G. Bradley (Smurfit Institute of Genetics, University College of Dublin, Ireland);

- Daniel García Martinez (Universidad Autónoma de Madrid);

- Luís Rios (Universidad Autónoma de Madrid);

- Koura Gibson (USA);

- Anne Marie Jordan (UK); e

- Kate Lowe (Queen Mary University of London).

Desta dinâmica de investigação, que, refira-se, não resulta evidente do artigo agora publicado na edição de 3 de Julho de 2015 do Expresso, resultou já uma longa lista de publicações nacionais e internacionais, entre as quais se contam também diversos trabalhos académicos apresentados ou em curso de preparação no DCV-UC, no quadro do seu Mestrado em Evolução Humana:

Ana Isabel Rufino, 2014. Modificações dentárias intencionais e patologia oral: estudo de uma amostra de escravos africanos dos séculos XV-XVII;

- Alexandra Costa, 2013. Os Infantes de Lagos: um estudo de crescimento numa amostra de não-adultos do Poço dos Negros (séculos XV-XVII);

- Catarina Coelho, 2012. Uma identidade perdida no mar e reencontrada nos ossos. Avaliação das afinidades populacionais de uma amostra de escravos dos séculos XV-XVI;

- Marta Furtado, 2012. Aplicação de métodos morfométricos nos coxais numa amostra de negros proveniente de Lagos;

- Ana Bárbara Mendonça, em curso. Tema: Análise paleobiológica de uma amostra de esqueletos adultos de escravos dos séculos XV-XVII; e

- Marta Tavares, em curso. Tema: Sinais de stress e patologia metabólica numa amostra de esqueletos adultos de escravos dos séculos XV-XVII.



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