Soure medievo e moderno



Encontra-se em curso por parte duma equipa da Dryas e em colaboração com diversos investigadores do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC o estudo dos modos de vida e de gestão da morte em tempos medievais e modernos na vila de Soure (Coimbra).

Os trabalhos arqueológicos desenvolvidos no Largo do Castelo Soure consistiram numa acção de minimização do impacto arqueológico e patrimonial da obra de construção da Piscina coberta de Soure. No decurso desses trabalhos arqueológicos foram identificados um conjunto de níveis e estruturas arqueológicas de inegável dimensão histórica, arqueológica e antropológica. Face ao elevado valor patrimonial destes achados, a própria edilidade viria a desistir da execução do projecto de construção da piscina, optando pela implementação de um programa de valorização de todo este conjunto arqueológico.

O bom estado de preservação dos vestígios osteológicos identificados, a par de uma gama muito vasta de elementos da cultura material tem permitido à nossa equipa o desenvolvimento de um vasto programa de investigação em curso centrado neste sítio, cujos vestígios identificados permitem a entrever as estratégias de ocupação do espaço, modos de vida e mentalidade das populações da região do Baixo-Mondego desde os momentos fundacionais da nacionalidade.

Sendo um dos pontos mais importantes de defesa cristã da linha de Coimbra, a identificação de estruturas defensivas – nomeadamente um troço de muralha até então desconhecido e um provável vestígio de um torreão – vem comprovar que o que se conhecia não era senão uma pequena porção da fortificação de Soure, provavelmente, o último reduto de defesa transformado ulteriormente num edifício de tipo paço.

Entre os vestígios mais antigos cumpre destacar a identificação no espaço delimitado por estas duas estruturas defensivas de duas lareiras que se sobrepõem a um pavimento em argila cozida, recoberto por um espesso nível de carvões e cinzas, a que se sobrepõem diversos níveis de sedimentação natural que testemunham o abandono do castelo.

Refira-se que as fontes medievais citam a destruição voluntária do castelo pelos seus habitantes em 1116 perante a ameaça almorávida a toda a zona de Coimbra. No decurso desta investida, e embora Soure não tenha sido directamente atacada, a sua população terá abandonado a região em debandada para a segurança das muralhas de Coimbra, não sem antes proceder à destruição voluntária e ao incêndio do Castelo de Soure.

Tanto as fontes históricas como a estratificação identificada no sítio comprovam a existência de um hiato temporal entre esta primeira ocupação e a retoma do espaço pelas populações medievais.

Estando pacificado este limite meridional de defesa do Reino, este mesmo espaço viria a conhecer ainda em época medieval e depois em época moderna uma utilização muito diferente, daquela de vocação defensiva inicial.

Com efeito, toda esta vasta área será ocupada pela necrópole da igreja de Nossa Sra. de Finisterra, aqui erigida por volta de 1138. Parte dos estudos já realizados e a realizar centram-se nesta necrópole, testemunho directo dos habitantes medievais e modernos de Soure. 



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